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Vale a pena ser físico?

Há uma certa mitificação da imagem do cientista em geral e do físico em particular, o que leva algumas pessoas a crer que o cientista é sempre uma personalidade rara, dotada de características sobre-humanas. Destas perspectiva, a pergunta que dá o título a este livro soa mais ou menos assim: "Vale a pena ser um gênio exótico, apaixonado pelos mistérios da natureza e alheio às questões elementares da vida humana?" Tal pergunta é tão irrespondível quanto esta outra: "Vale a pena ser uma borboleta?"

Há uma outra mitificação, que leva a crer que a ciência só se faz em gigantescos laboratórios, nos países mais ricos do mundo, onde imensas equipes de impessoais pesquisadores ficariam confinadas, decidindo o futuro da humanidade e falando em uma linguagem inacessível aos simples mortais. Vista assim, a pergunta fica: "Vale a pena disputar vaga para robô sagrado?"

É preciso superar estas visões caricaturais da ciência para compreender o trabalho do físico e os desafios que este enfrenta nas atividades que exerce como pesquisador e professor. É necessário conhecer a Física não só enquanto conhecimento e atividade mundial, mas também conhecer a Física feita no país, sua evolução, as questões atuais que a motivam, as condições reais em que se trabalha atualmente neste campo. Além disso, há que se saber como esta ciência está incorporada nas técnicas e na cultura contemporânea e de que diferentes maneiras seu conhecimento se tornou essencial para muitas profissões.

 

A física do mundo passou, no século XX, por sucessivas revoluções, com reflexos diretos na cosmologia, na filosofia, assim como na tecnologia e nas demais  ciências. Isso ampliou não só o panorama do que era considerado o universo de investigação física mas também, e conseqüentemente, o campo de trabalho do físico.

Parte da Física (como os estudos da matéria condensada e do núcleo atômico) mostrou-se tão pródiga em resultados práticos e se integrou tão eficazmente nas transformações tecnológicas do mundo moderno que se tornou imprescindível como base conceitual para o desenvolvimento do sistema produtivo da sociedade moderna. Isto vale tanto para o mundo como um todo como também para cada nação busque uma evolução autônoma e integrada de suas potencialidades.

    

Outra parte da Física (como os estudos da cosmologia e das partículas elementares) relaciona a profundeza do microcosmo, onde procura os constituintes fundamentais da matéria, com a amplidão intergaláctica, onde investiga origens e limites do que quer que se possa chamar de "todo" ou de "universo". Trabalhando no extremo ou mesmo além das intervenções causais sobre o mundo natural, esbarra em princípios de harmonia essenciais e abstratos, reeditando visões mágicas de mundo  de culturas distantes no tempo e no espaço.

Não há como compreender sequer uma parte da Física sem ter presente a perspectiva histórica desta ciência e da aventura humana. Sendo integrante da cultura humana, a ciência não pode ser pensada em separado. A Física, como as demais ciências, condicionada que é em seu desenvolvimento pelas condições materiais e culturais, constitui um bom indicador da moderna evolução dos povos e das nações, melhor talvez que o Produto Interno Bruto, melhor talvez que a música ou o esporte. Os padrões e o intercâmbio internacionais permitem que sejam comparadas, o desenvolvimento científico constitui um importante componente cultural para o desenvolvimento das nações não só no plano tecnológico e produtivo mas também no âmbito político e social.

Quem pretender se dedicar à Física ou ao Ensino da Física no Brasil deve estar consciente da contribuição do seu trabalho para a solução de problemas nacionais e, ao mesmo tempo, estar atento às dificuldades hoje existentes no sistema educacional e na pesquisa científica do país. Vencer essa dificuldades será parte de seu trabalho. A consciência do significado prático e o conhecimento dos problemas a enfrentar em nada comprometem a beleza da pesquisa científica.

O desafio maior, não só no Brasil mas particularmente no Brasil, é a questão educacional. A Física tem um papel indiscutível na educação científica básica; no entanto, seu ensino passa por prolongada crise, assim como todo o sistema educacional. Será muito alto o custo da continuação desse impasse, pois a relevância social e prática da ciência, num momento em que é rápida a evolução de nossa sociedade, exige solução a curto prazo. Para essa tarefa podem se considerar antecipadamente convocados os futuros físicos brasileiros.

Luís Carlos de Menezes
Físico e professor da Universidade de São Paulo

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